Você não precisa dar conta de tudo | Por Lola Carvalho, escritora e publicitária

Dia desses, quando cheguei do trabalho, o que eu mais queria era tomar um banho, organizar as crianças, colocar uma roupa confortável e assistir a um filme. Mas quando entrei em casa, me deparei com a pia absurdamente lotada de louça. Murchei, instantaneamente. Até minha fisionomia mudou.
Me dei conta de que para chegar onde eu queria, no caso, minha cama, eu ainda teria uma longa jornada: teria que aproveitar um tempinho com meu filho mais novo, já que o mano e meu marido estavam no futebol, ajudá-lo no banho, fazer algo para gente comer e, lá pelas dez, quando o colocasse na cama, eu ainda teria aquela pia cheia de louça me esperando.
Mas sabe o que eu fiz depois que fechei a porta do quarto do Caetano? Tomei um banho, coloquei uma roupa confortável e fui pra minha cama. Foi libertador. Me dei conta de que não havia nada de errado em não lavar a louça naquele momento, de que ninguém ia morrer se eu não deixasse algo pronto para comer para a volta do futebol e me priorizei.
E sabe o que aconteceu? Me senti culpada, egoísta e quase voltei atrás. Fiquei refletindo que o que acaba conosco é esta Síndrome da Mulher Maravilha. Muitas vezes, queremos ser aquela que sempre dá conta de tudo, que está sempre com um sorriso no rosto, maquiada, escovada, bem-humorada e bem disposta. Não podemos esquecer que somos humanas!
Muito antes de sermos mães, esposas, filhas, profissionais, e tantas outras facetas que exercitamos todos os dias, somos mulheres de carne e osso e nem sempre estamos dispostas a matar um leão por dia. Às vezes, temos ânimo para matar uma barata e olhe lá.
Haverá momentos em que não vamos dar conta de tudo e está tudo bem. Isso não significa que amamos menos nossos filhos e nossos parceiros. Significa apenas, que somos totalmente normais. Com dias bons e dias ruins. Às vezes com vontade para tudo, e outras, com vontade de nada. E pode ter certeza que o mundo não vai parar de girar se não estivermos no controle de tudo, o tempo todo.
Quantas vezes nos cobramos além da conta? Quantas vezes, nos julgamos por acharmos que não fomos boas o suficiente, que podíamos ter feito mais e melhor. Precisamos estar atentas aos nossos sinais. Todos nós temos um limite e ele vai se manifestando de diversas formas: pode ser com momentos de irritabilidade, tristeza, falta de sono, cansaço. Quando não aceitamos nossos limites, invariavelmente, esta sobrecarga vai se manifestar no nosso corpo em forma de algum problema de saúde.
Nós, mães, temos em nós uma vontade enorme de abraçar o mundo. Via de regra, somos nós, que orquestramos grande parte da rotina na nossa casa e damos o ritmo do dia-a-dia da nossa família. Mas precisamos exercitar o desapego, deixando o controle de lado e confiando mais em nossos filhos, companheiros, delegando mais, mesmo que não façam exatamente como gostaríamos.
Quando conseguimos fazer isso, todos saem ganhando e aos poucos, esta colaboração mútua vai fazendo parte da rotina de cada um e este organismo chamado família, vai funcionando cada vez mais e melhor. Cada um faz a sua parte para que tudo funcione melhor. Quando estamos bem, toda a nossa família segue esta mesma sintonia. Então, quem sabe relaxamos mais e nos cobramos menos?

 

Lola Carvalho é publicitária, jornalista e autora do livro “Mãe Sem Limite”.

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